A
palpitação e o friozinho na boca do estômago cederam. Sinto força
e coragem. Olho-me no espelho e estou maior, pareço ter um metro e
oitenta muito embora não tenha chegado nem a um e sessenta. Meu
reflexo se modifica. Vejo um samurai, em seguida uma velha. A
feiticeira celta de minha imaginação. A intuição e força
femininas crescem em mim.
Acordo
o restante da casa e começa um alvoroço. A ventania espalha os
papéis sobre a mesa. Fecho a janela. Recolho os papéis. Faço uma
última vistoria no quarto. Tudo em ordem. A cama está feita. As
roupinhas limpas e passadas. A farmacinha dentro do cesto de vime. As
fraldas empilhadas no porta-fraldas xadrez.
Meu
marido e minha mãe estão completamente tontos, e eu confiante.
Ligamos para o médico e seguimos para o consultório. São 6:30
horas. As contrações de 5 em 5 minutos me enganam, penso que o bebê
nascerá a qualquer momento. Sorrio para mim mesma enquanto lembro-me
do parto de mamãe.
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Em
outro tempo mamãe prepara-se para dar à luz. A beleza dessa
expressão destoa do registro feito por ela no livro da maternidade:
“Parto normal é coisa de quadrúpede!”
A
bolsa estourou. Ela e papai tomam um táxi para a maternidade.
Apreensivos preferem o silêncio e se abraçam. Mamãe se encolhe no
seu peito.
Depois
de fazerem o registro na recepção uma enfermeira os leva para o
quarto. Tudo é simples e limpo. Eles se despedem e ela se desespera.
A ausência de ruídos acentua a batida acelerada do seu coração.
Está sozinha agora. Ela e sua barriga murcha.
A
enfermeira sai e ao retornar não encontra a paciente no quarto.
Preocupada começa a gritar.
- Alguém viu a parturiente? Onde está a parturiente?
Mamãe
aproveitando a saída da enfermeira, sem ter para onde correr, viu a
cortina estampada e não pensou duas vezes escondeu-se. Esperava
adiar o inadiável.
Depois
de percorrer a maternidade em busca de mamãe, a enfermeira
esbaforida retornou ao quarto onde viu seus pequenos pés e sua
barriga trêmula enrolada sob a cortina.
- Mas a senhora hein, o que está fazendo aí?
Do
quarto para a sala de parto ela não lembra nada. Após muitas
lágrimas, gritos e sofrimento finalmente tomei meu primeiro ar as 7h
e 30 minutos de um domingo ensolarado num dia de inverno carioca.
Na sala de parto logo que viu seu bebê mamãe entusiasmada exclamou "meu filho, meu filho", ao que o médico bem humorado retrucou "diga minha filha, minha filha, pois é uma menina".
Inúmeras
vezes ouvimos essa história contada por mamãe e rimos de sua
imitação da enfermeira de fala empolada.
Ao
sair da maternidade lhe pediram que escrevesse suas impressões num
imponente livro com capa de couro e letras douradas. Tenho
vontade de procurar esse livro na Casa de Saúde Santa Lúcia para
constatar o óbvio. A página provavelmente foi arrancada.
Nossa ligação é visceral. Com pouco mais de um mês de nascida mamãe voltou ao hospital para operar o seio direito infeccionado por mastite. Eu, alguns dias depois, também fui diagnosticada com mastite neonatal e hospitalizada para retirada do abcesso no seio direito. Nossas cicatrizes são iguais, a marca de nossa empatia.
༺༻
Outra
contração, agora bem mais aguda trouxe-me de volta. Saímos do
consultório e caminhamos até o hospital! São apenas três quadras.
Caminho com passos decididos.
Ao
chegarmos no hospital, após o registro de praxe, somos levados a um
quarto claro, com cortinas transparentes. Aqui não posso
esconder-me, penso e sorrio.
Uma
enfermeira prepara-me para o parto. Aguento resignada ao
constrangimento da depilação e da lavagem feitas por aquela
desconhecida áspera e fria.
Por
enquanto tudo está calmo e sob controle. O médico resolve dar uma
química para induzir mais contrações. Finalmente entro em trabalho
de parto. Pela primeira vez compreendo minha mãe.
Meus
quadris estreitos me fazem sofrer. E o bebê estará sofrendo? Espero
que não. A dor fica insuportável. Não sigo conselho algum e grito
alto. O ar entra e empurra o bebê para cima dificultando ainda mais
a sua chegada.
Minha
cunhada está no quarto agora e exaspera-se diante da minha teimosia.
Sinceramente, não me importo e grito mais alto ainda. Choro. Choro
muito. Estou rouca de tanto gritar.
- Coroou!
Anunciou o médico com entusiasmo.
Fomos
para o centro cirúrgico. Minha mente está vazia. Cansaço. O médico
pede que eu faça força e empurre o bebê. Exaurida tento uma vez
mais.
Um
pouco depois das 13:00 horas nasceu meu bebê. Meu primeiro bebê.
Uma menina, diz o médico. Apesar das ultrassonografias indicarem o
sexo feminino me surpreendi. Rezei até o último momento por um
menino, mais pelo desejo de meu marido que pelo meu, ou quem sabe por
influência de mamãe que até o último momento acreditava que eu
seria um menino. Desmaiei e não vi mais nada.
Despertei
com o balanço da maca em direção ao quarto, onde papai e meu
marido estão a me esperar. Meus olhos inchados diminuem ainda mais
com meu sorriso. Meus braços estão roxos como meus olhos.
Alguém
bateu na porta e, sem esperar resposta, a abre devagar. Uma
enfermeira traz o meu bebê. Minha japonesa, morena, miúda e de
nariz perfeito. Tudo nela brilha. Lágrimas quentes descem e molham
minha camisola. Outras lágrimas escorrem pelos rostos másculos dos
homens que me acompanham.
Essa
foi minha primeira comunhão com mamãe. Pela primeira vez entendi
sua emoção, sua dor, sua descoberta, seus motivos, seus
esconderijos.
Em
algum lugar daquela maternidade mamãe comungava comigo, ao seu modo,
escondida. Protegendo-se da emoção de me ver mãe. Protegendo-se da
emoção de ser avó pela primeira vez.
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