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quarta-feira, 15 de março de 2017

Primeira comunhão

Três horas e começo a sentir um mal-estar. Será agora? Espero. Vinte minutos e a dor se repete. Respiro. Agora já são quase 4 horas. De novo meu ventre estremece. Não há mais dúvidas, chegou a hora.

A palpitação e o friozinho na boca do estômago cederam. Sinto força e coragem. Olho-me no espelho e estou maior, pareço ter um metro e oitenta muito embora não tenha chegado nem a um e sessenta. Meu reflexo se modifica. Vejo um samurai, em seguida uma velha. A feiticeira celta de minha imaginação. A intuição e força femininas crescem em mim.

Acordo o restante da casa e começa um alvoroço. A ventania espalha os papéis sobre a mesa. Fecho a janela. Recolho os papéis. Faço uma última vistoria no quarto. Tudo em ordem. A cama está feita. As roupinhas limpas e passadas. A farmacinha dentro do cesto de vime. As fraldas empilhadas no porta-fraldas xadrez.

Meu marido e minha mãe estão completamente tontos, e eu confiante. Ligamos para o médico e seguimos para o consultório. São 6:30 horas. As contrações de 5 em 5 minutos me enganam, penso que o bebê nascerá a qualquer momento. Sorrio para mim mesma enquanto lembro-me do parto de mamãe.

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Em outro tempo mamãe prepara-se para dar à luz. A beleza dessa expressão destoa do registro feito por ela no livro da maternidade: “Parto normal é coisa de quadrúpede!”

A bolsa estourou. Ela e papai tomam um táxi para a maternidade. Apreensivos preferem o silêncio e se abraçam. Mamãe se encolhe no seu peito.

Depois de fazerem o registro na recepção uma enfermeira os leva para o quarto. Tudo é simples e limpo. Eles se despedem e ela se desespera. A ausência de ruídos acentua a batida acelerada do seu coração. Está sozinha agora. Ela e sua barriga murcha.

A enfermeira sai e ao retornar não encontra a paciente no quarto. Preocupada começa a gritar.

- Alguém viu a parturiente? Onde está a parturiente?

Mamãe aproveitando a saída da enfermeira, sem ter para onde correr, viu a cortina estampada e não pensou duas vezes escondeu-se. Esperava adiar o inadiável.

Depois de percorrer a maternidade em busca de mamãe, a enfermeira esbaforida retornou ao quarto onde viu seus pequenos pés e sua barriga trêmula enrolada sob a cortina.

- Mas a senhora hein, o que está fazendo aí?

Do quarto para a sala de parto ela não lembra nada. Após muitas lágrimas, gritos e sofrimento finalmente tomei meu primeiro ar as 7h e 30 minutos de um domingo ensolarado num dia de inverno carioca.

Na sala de parto logo que viu seu bebê mamãe entusiasmada exclamou "meu filho, meu filho", ao que o médico bem humorado retrucou "diga minha filha, minha filha, pois é uma menina".

Inúmeras vezes ouvimos essa história contada por mamãe e rimos de sua imitação da enfermeira de fala empolada.

Ao sair da maternidade lhe pediram que escrevesse suas impressões num imponente livro com capa de couro e letras douradas. Tenho vontade de procurar esse livro na Casa de Saúde Santa Lúcia para constatar o óbvio. A página provavelmente foi arrancada.

Nossa ligação é visceral. Com pouco mais de um mês de nascida mamãe voltou ao hospital para operar o seio direito infeccionado por mastite. Eu, alguns dias depois, também fui diagnosticada com mastite neonatal e hospitalizada para retirada do abcesso no seio direito. Nossas cicatrizes são iguais, a marca de nossa empatia.

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Outra contração, agora bem mais aguda trouxe-me de volta. Saímos do consultório e caminhamos até o hospital! São apenas três quadras. Caminho com passos decididos.

Ao chegarmos no hospital, após o registro de praxe, somos levados a um quarto claro, com cortinas transparentes. Aqui não posso esconder-me, penso e sorrio.

Uma enfermeira prepara-me para o parto. Aguento resignada ao constrangimento da depilação e da lavagem feitas por aquela desconhecida áspera e fria.
Por enquanto tudo está calmo e sob controle. O médico resolve dar uma química para induzir mais contrações. Finalmente entro em trabalho de parto. Pela primeira vez compreendo minha mãe.

Meus quadris estreitos me fazem sofrer. E o bebê estará sofrendo? Espero que não. A dor fica insuportável. Não sigo conselho algum e grito alto. O ar entra e empurra o bebê para cima dificultando ainda mais a sua chegada.

Minha cunhada está no quarto agora e exaspera-se diante da minha teimosia. Sinceramente, não me importo e grito mais alto ainda. Choro. Choro muito. Estou rouca de tanto gritar.

- Coroou! Anunciou o médico com entusiasmo.

Fomos para o centro cirúrgico. Minha mente está vazia. Cansaço. O médico pede que eu faça força e empurre o bebê. Exaurida tento uma vez mais.

Um pouco depois das 13:00 horas nasceu meu bebê. Meu primeiro bebê. Uma menina, diz o médico. Apesar das ultrassonografias indicarem o sexo feminino me surpreendi. Rezei até o último momento por um menino, mais pelo desejo de meu marido que pelo meu, ou quem sabe por influência de mamãe que até o último momento acreditava que eu seria um menino. Desmaiei e não vi mais nada.

Despertei com o balanço da maca em direção ao quarto, onde papai e meu marido estão a me esperar. Meus olhos inchados diminuem ainda mais com meu sorriso. Meus braços estão roxos como meus olhos. 

 

 

Alguém bateu na porta e, sem esperar resposta, a abre devagar. Uma enfermeira traz o meu bebê. Minha japonesa, morena, miúda e de nariz perfeito. Tudo nela brilha. Lágrimas quentes descem e molham minha camisola. Outras lágrimas escorrem pelos rostos másculos dos homens que me acompanham. 

Essa foi minha primeira comunhão com mamãe. Pela primeira vez entendi sua emoção, sua dor, sua descoberta, seus motivos, seus esconderijos.

Em algum lugar daquela maternidade mamãe comungava comigo, ao seu modo, escondida. Protegendo-se da emoção de me ver mãe. Protegendo-se da emoção de ser avó pela primeira vez.


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