Talvez
não se lembre de mim mas para situar-lhe voltarei no tempo. Tenho
quase cinco anos e acabo de chegar no Mallet Soares onde você
alfabetiza as crianças no primeiro ano primário. O ano? 1964.
Eu
não tinha idéia do que acontecia ao nosso redor, talvez por isso
sua fisionomia estivesse sempre tão carregada. Você não sorria
nunca. Desculpe a minha sinceridade mas você era muito antipática.
Será que tinha algum filho comunista? Ou o marido? Ou um tio? Vai
ver que seu pai era militar? Não sei o que estava se passando com a
sua vida, mas vou falar-lhe um pouco sobre mim, afinal você foi
minha primeira professora e suas atitudes (ou a falta delas)
influenciaram a minha vida.
Sou
tímida e inteligente. Meu raciocínio não é rápido, como o de
algumas crianças. Tenho percepção apurada do ambiente ao meu
redor, esse é o meu ponto forte, mas ninguém na escola valorizava
esse tipo de inteligência (nem sei se valorizam hoje em dia).
Aprendi
a prestar atenção na atitude de crianças e adultos e cataloguei
seus comportamentos na minha mente. Nem sei dizer como fiz isso, mas
fiz. Sou uma observadora. A medida que aumentei meu arquivo pessoal,
me distanciei dos próprios sentimentos. Talvez tenha agido dessa
forma para me proteger, também pudera, o ambiente escolar era muito
austero. Sei dos outros e não sei de mim (that`s my
problem).
Na
entrada da escola, antes de tocar a sineta, eu pulava elástico,
jogava ioiô e trocava figurinhas com os meninos. Nesse tempo
colecionava o álbum de figurinhas Holanda. Poxa, como eu gostava
desse álbum! Ele tratava de assuntos gerais, mas o que eu mais
gostava era da cultura dos povos de outros países, era o máximo!
Também gostava de observar o tatu bola do jardim. Sabe qual é?
Aquele bichinho que se encolhia em torno de si mesmo e virava uma
bolinha.
Um
dia lhe pedi para ir ao banheiro e você mandou esperar. Esperar o
quê? O banheiro das meninas era grande, tinha umas quatro portas e
nenhuma tinha pedido para ir ao banheiro. Não deu para segurar o
xixi, aliás o xixi não dava para segurar em lugar nenhum. Quase
todo dia acordava molhada, mamãe não lhe contou?
Você
com certeza não se lembra, mas naquele dia (graças a sua falta de
sensibilidade) fiz xixi na calcinha e fui alvo da gargalhada da
gurizada. Aquilo me matou por dentro. Daquele dia em diante fiquei
atenta ao ambiente, perdi minha naturalidade. As crianças eram
legais e cruéis, e você, ah você nem se importou, nem mandou eles
se calarem ou me pedirem desculpas. Você não se colocou no meu
lugar. A partir desse dia virei um tatu bola.
Sua
preocupação era ensinar o “vovô viu a uva”, e o elementar “2
+ 2 é igual a ...”. As crianças não estavam nem aí para o seu
blá blá blá, você não tinha nenhuma criatividade para nos
ensinar, aprender era a coisa mais desinteressante do mundo, nem sei
como conseguimos passar de ano.
O
ano de 64 foi longo para mim, os dias passavam devagar e você
continuava com a mesma cara amarrada, parecia não gostar do que
fazia. Não me sentia a vontade contigo e, confesso, tinha medo de
você. Sendo assim, evitava falar. Dúvidas? Se as tive, tratei de
resolver (ou não), mas passei para o segundo ano e para uma
professora ainda pior, D. Clélia.
Falta
de sorte ou efeito dominó, a ditadura de fora incentivava a ditadura
do colégio. A sineta tocava a gente fazia fila e cantava o hino
nacional. As cantigas de roda se distanciavam cada vez mais do nosso
cotidiano. Monotonia.
Lembro-me
do dia em que o Henrique, menino magrinho e de olhar triste que
acabara de retornar depois de uma ausência prolongada, foi
subestimado por você. Estávamos no mês de agosto e fazíamos
alguma atividade pelo Dia dos Pais e o menino começou a chorar
porque seu pai tinha morrido. Será possível que você não soubesse
de um fato como esse com seu aluno? Você não foi carinhosa com o
Henrique, apenas o retirou da sala para que as outras crianças não
soubessem o que tinha acontecido, como se as crianças fossem
estúpidas e não pudessem participar da dor do Henrique. Lembro-me
do olhar do menino, os cílios longos, os olhos castanhos
avermelhados de tanto chorar. O Henrique era um menino muito
sensível, eu me solidarizei com ele e nunca pude dizer-lhe. Aquilo
me marcou profundamente.
Um
dia mamãe colocou laranjada na minha merendeira. Acho que estava
estragada porque vomitei. Você não gostou nem um pouco, lembra?
Pensando bem não sei se vomitei uma laranjada “passada”, ou se
vomitei a sua falta de sensibilidade. Eu percebia tudo, você só
dava atenção às meninas engomadas. Mamãe não engomava meu
uniforme. Eu era uma menina simples. Não era filha de militar , de
engenheiro ou de professor (naquele tempo os professores não eram
marginalizados como agora). Papai era contador e mamãe funcionária
pública. Eles faziam das tripas coração para pagar um colégio
particular para que eu tivesse uma boa educação.
Apesar
de tudo eu fui muito feliz na escola. O primário foi meio infernal.
Depois da D. Clélia tivemos uma professora-mala D. Zoraida.
Aportuguesaram o nome de origem germânica (Zoraide), mas não
conseguiram apagar seu instinto hitlerista. Alguma coisa aconteceu no
ano seguinte porque, para nossa infelicidade, D. Zoraida foi nossa
professora no quarto ano também! No quinto fui aos céus com D.
Regina, uma professora mais velha, doce e atenciosa. Com ela
finalmente aprendi matemática.
Tenho
cinqüenta e quatro anos, mais idade do que você tinha quando me
alfabetizou. A minha criança ralhou contigo, mas a adulta
relativizou suas atitudes. Hoje entendo que a sua frieza não era uma
prerrogativa somente sua, mas estava presente em todo lugar. Eram
tempos difíceis. Tempos de silêncio, tempos de bater
continência. Nesse contexto crescemos, vendo e fingindo não
enxergar, ouvindo tendo que se calar, obedecendo com vontade de
contestar. Assim fomos moldados e com essa forma fomos para o mundo.
A
menina, colecionadora do álbum Holanda e arquivista de
comportamentos humanos, graduou-se em História e trocou o
arquivamento dos comportamentos pelos documentos históricos. Agora,
prestes a se aposentar, prepara-se para voltar aos arquivos do seu
mundo interior, buscar aqueles comportamentos catalogados e usar sua
fantasia de menina para criar e contar histórias, brincar com as
palavras, arriscar e se reinventar.
Sem
mágoas, receba um abraço de sua aluna
Sandra Pinto
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