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quarta-feira, 15 de março de 2017

Carta para Dona Silvia

Dona Silvia,

Talvez não se lembre de mim mas para situar-lhe voltarei no tempo. Tenho quase cinco anos e acabo de chegar no Mallet Soares onde você alfabetiza as crianças no primeiro ano primário. O ano? 1964.

Eu não tinha idéia do que acontecia ao nosso redor, talvez por isso sua fisionomia estivesse sempre tão carregada. Você não sorria nunca. Desculpe a minha sinceridade mas você era muito antipática. Será que tinha algum filho comunista? Ou o marido? Ou um tio? Vai ver que seu pai era militar? Não sei o que estava se passando com a sua vida, mas vou falar-lhe um pouco sobre mim, afinal você foi minha primeira professora e suas atitudes (ou a falta delas) influenciaram a minha vida.

Sou tímida e inteligente. Meu raciocínio não é rápido, como o de algumas crianças. Tenho percepção apurada do ambiente ao meu redor, esse é o meu ponto forte, mas ninguém na escola valorizava esse tipo de inteligência (nem sei se valorizam hoje em dia).

Aprendi a prestar atenção na atitude de crianças e adultos e cataloguei seus comportamentos na minha mente. Nem sei dizer como fiz isso, mas fiz. Sou uma observadora. A medida que aumentei meu arquivo pessoal, me distanciei dos próprios sentimentos. Talvez tenha agido dessa forma para me proteger, também pudera, o ambiente escolar era muito austero. Sei dos outros e não sei de mim (that`s my problem).

Na entrada da escola, antes de tocar a sineta, eu pulava elástico, jogava ioiô e trocava figurinhas com os meninos. Nesse tempo colecionava o álbum de figurinhas Holanda. Poxa, como eu gostava desse álbum! Ele tratava de assuntos gerais, mas o que eu mais gostava era da cultura dos povos de outros países, era o máximo! Também gostava de observar o tatu bola do jardim. Sabe qual é? Aquele bichinho que se encolhia em torno de si mesmo e virava uma bolinha.

Um dia lhe pedi para ir ao banheiro e você mandou esperar. Esperar o quê? O banheiro das meninas era grande, tinha umas quatro portas e nenhuma tinha pedido para ir ao banheiro. Não deu para segurar o xixi, aliás o xixi não dava para segurar em lugar nenhum. Quase todo dia acordava molhada, mamãe não lhe contou?

Você com certeza não se lembra, mas naquele dia (graças a sua falta de sensibilidade) fiz xixi na calcinha e fui alvo da gargalhada da gurizada. Aquilo me matou por dentro. Daquele dia em diante fiquei atenta ao ambiente, perdi minha naturalidade. As crianças eram legais e cruéis, e você, ah você nem se importou, nem mandou eles se calarem ou me pedirem desculpas. Você não se colocou no meu lugar. A partir desse dia virei um tatu bola.

Sua preocupação era ensinar o “vovô viu a uva”, e o elementar “2 + 2 é igual a ...”. As crianças não estavam nem aí para o seu blá blá blá, você não tinha nenhuma criatividade para nos ensinar, aprender era a coisa mais desinteressante do mundo, nem sei como conseguimos passar de ano.

O ano de 64 foi longo para mim, os dias passavam devagar e você continuava com a mesma cara amarrada, parecia não gostar do que fazia. Não me sentia a vontade contigo e, confesso, tinha medo de você. Sendo assim, evitava falar. Dúvidas? Se as tive, tratei de resolver (ou não), mas passei para o segundo ano e para uma professora ainda pior, D. Clélia.

Falta de sorte ou efeito dominó, a ditadura de fora incentivava a ditadura do colégio. A sineta tocava a gente fazia fila e cantava o hino nacional. As cantigas de roda se distanciavam cada vez mais do nosso cotidiano. Monotonia.

Lembro-me do dia em que o Henrique, menino magrinho e de olhar triste que acabara de retornar depois de uma ausência prolongada, foi subestimado por você. Estávamos no mês de agosto e fazíamos alguma atividade pelo Dia dos Pais e o menino começou a chorar porque seu pai tinha morrido. Será possível que você não soubesse de um fato como esse com seu aluno? Você não foi carinhosa com o Henrique, apenas o retirou da sala para que as outras crianças não soubessem o que tinha acontecido, como se as crianças fossem estúpidas e não pudessem participar da dor do Henrique. Lembro-me do olhar do menino, os cílios longos, os olhos castanhos avermelhados de tanto chorar. O Henrique era um menino muito sensível, eu me solidarizei com ele e nunca pude dizer-lhe. Aquilo me marcou profundamente.

Um dia mamãe colocou laranjada na minha merendeira. Acho que estava estragada porque vomitei. Você não gostou nem um pouco, lembra? Pensando bem não sei se vomitei uma laranjada “passada”, ou se vomitei a sua falta de sensibilidade. Eu percebia tudo, você só dava atenção às meninas engomadas. Mamãe não engomava meu uniforme. Eu era uma menina simples. Não era filha de militar , de engenheiro ou de professor (naquele tempo os professores não eram marginalizados como agora). Papai era contador e mamãe funcionária pública. Eles faziam das tripas coração para pagar um colégio particular para que eu tivesse uma boa educação.


Apesar de tudo eu fui muito feliz na escola. O primário foi meio infernal. Depois da D. Clélia tivemos uma professora-mala D. Zoraida. Aportuguesaram o nome de origem germânica (Zoraide), mas não conseguiram apagar seu instinto hitlerista. Alguma coisa aconteceu no ano seguinte porque, para nossa infelicidade, D. Zoraida foi nossa professora no quarto ano também! No quinto fui aos céus com D. Regina, uma professora mais velha, doce e atenciosa. Com ela finalmente aprendi matemática.

Tenho cinqüenta e quatro anos, mais idade do que você tinha quando me alfabetizou. A minha criança ralhou contigo, mas a adulta relativizou suas atitudes. Hoje entendo que a sua frieza não era uma prerrogativa somente sua, mas estava presente em todo lugar. Eram tempos difíceis. Tempos de silêncio, tempos de bater continência. Nesse contexto crescemos, vendo e fingindo não enxergar, ouvindo tendo que se calar, obedecendo com vontade de contestar. Assim fomos moldados e com essa forma fomos para o mundo.

A menina, colecionadora do álbum Holanda e arquivista de comportamentos humanos, graduou-se em História e trocou o arquivamento dos comportamentos pelos documentos históricos. Agora, prestes a se aposentar, prepara-se para voltar aos arquivos do seu mundo interior, buscar aqueles comportamentos catalogados e usar sua fantasia de menina para criar e contar histórias, brincar com as palavras, arriscar e se reinventar.

Sem mágoas, receba um abraço de sua aluna

Sandra Pinto


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