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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Casamento adolescente

Verão de 1974. Na praia, como era de costume, a jovem sintoniza seu rádio de pilha na Mundial do Big Boy. Novos baianos, Mick Jagger, Ruy Maurity, Cat Stevens, Elton John, Hyldon, Lennon, Fagner. A música está no ar.  Sol, praia, chuva a tardinha. Trovoada, relâmpagos, cheirinho de ozônio. Nem mesmo os camburões da polícia militar parados nas esquinas de Copacabana tiram a beleza do momento.

Num segundo o céu fica negro. Pingos grossos molham as toalhas, barracas voam. Um amigo se aproxima e a ajuda a pegar suas coisas. O casal sai rapidamente da praia e corre em busca de uma marquise para proteger-se. São muito jovens, bronzeados, suados e molhados da chuva. Paixão e curiosidade. Como será o beijo? Pensamentos idênticos perpassam suas mentes, enquanto despretensiosamente conversam sobre assuntos corriqueiros.

Outro trovão ruge. Ela aproveita o susto para aconchegar-se naquele corpo moreno, suado e molhado da chuva. Os olhares se encontram, os rostos se aproximam. As bocas famintas abrem-se para se conhecer.  Ardor, paixão e identificação. O beijo é ótimo.

A estação mais quente do ano aquece os jovens corações no Rio de Janeiro.  É uma época de festas. A poucos dias do natal o astro rei ilumina  o céu do zodíaco no signo da cabra.  Seu amor é capricorniano.  Capricórnio é o regente de sua casa dos relacionamentos. A coincidência astrológica é bom presságio. Tudo vai dar certo. Há de dar certo, pensa a jovem geminiana.

A rebeldia e o espírito adolescente aceleram os acontecimentos. Não demora e chega a hora da entrega. Estranha, bonita e infinita.  Intuitivamente ela sabe como agir, só não esperava aquela dor. Uma pancada curta e seca. Tudo consumado. Ela volta para casa feliz e pronta para a nova vida. Adulta aos quinze anos. É um tempo de descobrir-se, virar-se ao avesso e viver.

Apaixonam-se.

Janis Joplin, Santana, The Moody Blues, Jethro Tull, Renaissance. "Você precisa conhecer o verdadeiro rock", dizia ele. Tudo encanta e ganha um significado especial. A bruma do amor envolve e entorpece os sentidos. Os papos, a música, os sonhos. A afinidade é total. Eles amam os bichos, conversam sobre tudo. Como a maioria dos jovens dessa época filosofam ao som do rock progressivo. O momento presente é intenso. E nesse mar calmo os meses escoam devagar.  Eles não se desgrudam nunca. Brigam, terminam, voltam e se amam. Sucessivamente. Não necessariamente nessa ordem.

O jovem capricorniano é moreno, bonito, tem corpo de modelo. Inteligente e meio desligado. Gentil e melancólico. Faz grandes planos para o futuro. Sonha ser piloto de fórmula 1. Quando seu xará morre num acidente de avião ele mata seu sonho de menino. Outros sonhos vem e vão. Melancolia.

A geminiana, que pensa saber das coisas, é na verdade uma menina querendo ser mulher, e tem pressa. É magra, miúda e míope. Dona de uma beleza antiga. Seus olhos verdes ficam escondidos sob os finos aros dos óculos de tartaruga, mas são lindos de qualquer jeito, mesmo que ela teime pensar o contrário! Adora usar vestidos longos e lenço na cabeça. Identifica-se com os hippies, os ciganos e os místicos. 

Tem um sonho secreto. Desenha seu futuro diante do espelho sem saber que tem o poder da bruxa. Um dia, meio de brincadeira, coloca um travesseiro por baixo do vestido longo marrom e fica admirando seu reflexo. Magia e barriga. Sua futura filha.


Dois anos depois, num outro dezembro, o Sol novamente percorre sua sétima casa e eles se casam. A caminho do cartório ela confessa a mãe que está com medo do casamento. O ambiente frio do cartório amplia ainda mais seus temores. A demora a serem chamados aumenta ainda mais sua angústia. Na sua  imaginação corre até a praia e respira o ar marinho. Retorna com o chamado do escrivão. Sente um frio na espinha. Será que ele também sentiu, pensa. Assinam o livro. Saem casados, ela emancipada. Sem casa, trabalho, com certidão de casamento e um bebê a caminho. 

Comemoram a noite no Dauphine, em Copacabana. Ele bebe até cair. Ela fica careta. Envelhece dez anos num dia.

Os primeiros anos são de construção, trabalho e fé. Novas concepções e redes se formam ao redor do jovem casal. As antigas teias se desfazem. Tornam-se cada vez mais estranhos. Decepções. Três anos depois chega a segunda filha. Agora eles são quatro. Sete anos depois o sonho termina

O amor adolescente é intenso. Para seguir adiante é preciso destruir o templo sagrado. Tarefa difícil e dolorosa. Com coragem a jovem pega a foice afiada e ceifa. Sobrevive. Prossegue cambaleante numa terra árida e desconhecida, a espera de outro amor num outro tempo, quem sabe.

Anos depois Fernanda Takai, no Youtube, a transporta para sua adolescência. Uma praia, um trovão, um casamento adolescente.

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada
Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada 








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