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domingo, 1 de fevereiro de 2015

O dia que não acabou


Ao sentir os primeiros raios de sol pulei da cama e coloquei meu vestido preferido, de xadrez vermelho com babados e sianinha branca. Na cozinha a mama cozinhava batatas e já se podia sentir o cheirinho gostoso de leitão assado. Sentei à mesa da copa onde ela serviu-me um copo de leite frio e um prato com quatro bolachas sem manteiga. Manteiga só comíamos aos domingos.

Enquanto eu engolia o café da manhã o mais rápido possível, a mama cantarolava baixinho as músicas de sua terra natal. Era uma mulher quieta e muito boa a minha mama. Papá quase não se via durante a semana, ele saía muito cedo para a fábrica. Toni e Mario, meus irmãos mais velhos, há tempos não apareciam em casa. Elisa estava no quarto maquiando. Ah, como era bonita minha irmã Elisa. Nossa diferença de idade não era muito grande, mas aos doze anos eu ainda não tinha peito enquanto ela, aos dezessete, já era uma mulher exuberante.

Quando o cuco tocou sete vezes peguei a última bolacha e saí correndo em direção ao portão.
Anita vê se não some! Às dez e meia quero você em casa para tomar banho!”, disse a mama.
Mama, dez e meia é muito cedo!”, retruquei. “Deixa eu ficar até onze, vou pra casa da Clementina”.

Clementina ou Tina era minha melhor amiga. Eu adorava brincar com ela de qualquer coisa. Amarelinha, estátua, boneca, dominó ou apenas conversar sobre os últimos programas da Rádio Nacional. Sonhava ser cantora. Morávamos numa rua sem saída, no bairro de Maria da Graça, subúrbio do Rio de Janeiro. No início da década de 40 a tranquilidade do nosso bairro só era quebrada quando passava o português gritando “Ooooolha o garrafeeeeiro!”.

Nesse dia um som inesperado rompeu o silêncio da rua e fez minha família calar-se para sempre. Motores de Buicks roncaram alto na entrada da rua. Seis homens desceram de dois carros negros. Interrogaram de casa em casa. A casa de Tina era coladinha com a nossa, no final da rua. Eu e Tina paramos de brincar para observar a movimentação. Os homens vieram rápido em nossa direção.

Menina ...” - disse um deles com voz rouca - “como é seu nome?” .
Anita, senhor. Donati”.
Onde está sua irmã Elisa”?
Lá dentro, senhor”. Depois reparei que os homens estavam armados.

Foi tudo muito rápido. Os homens saíram puxando minha irmã pelos cabelos. Os carros já estavam estacionados a nossa porta. A mama gritava e colocava a mão na cabeça. Os carros saíram cantando pneus. Pouco depois meus irmãos Toni e Mario chegaram esbaforidos, suados, barba por fazer. A mama contou-lhes o que tinha acontecido. “ A polícia de Getúlio chegou cedo. Eles perguntaram a Anita e por Eli...”. A mama não conseguiu terminar a frase e tombou desmaiada. Enquanto Mario acudia a mama, Toni sacudia-me pelos ombros gritando “Porque você fez isso Anita? Porque?”

O mês passou devagar. O canto da mama transformou-se num lamento, um gemido. Meus irmãos entravam e saíam de casa, mal olhavam em minha direção. Papá, por desgosto, não dormia mais em casa, ficava na fábrica a semana toda. Dia e noite. Noite e dia. Aos domingos chegava de mansinho para trazer a semanada e ver a mama. Mal dirigia-me a palavra. Os vizinhos cochichavam quando nos viam. Um dia escutei a mãe da Tina falando “eles são comunistas”. Eu e Clementina nunca mais brincamos juntas.

Num domingo cinzento e frio levamos um grande susto com fortes palmas no nosso portão. Papá foi ver quem era e demorou-se muito. Quando retornou estava transtornado. Os olhos vermelhos em lágrimas. Virou-se para mim e com muita raiva gritou “ Você matou Elisa, menina faladeira, você matou Elisa”.

Mudamos de cidade. Mudamos o sobrenome. Os Donatis vivos foram enterrados. Elisa morta nunca teve um funeral, pois seu corpo jamais foi encontrado. Esse dia nunca acabou para mim.

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