Ao
sentir os primeiros raios de sol pulei da cama e coloquei meu vestido
preferido, de xadrez vermelho com babados e sianinha branca. Na
cozinha a mama cozinhava batatas e já se podia sentir o cheirinho
gostoso de leitão assado. Sentei à mesa da copa onde ela serviu-me
um copo de leite frio e um prato com quatro bolachas sem manteiga.
Manteiga só comíamos aos domingos.
Enquanto
eu engolia o café da manhã o mais rápido possível, a mama
cantarolava baixinho as músicas de sua terra natal. Era uma mulher
quieta e muito boa a minha mama. Papá quase não se via durante a
semana, ele saía muito cedo para a fábrica. Toni e Mario, meus
irmãos mais velhos, há tempos não apareciam em casa. Elisa estava
no quarto maquiando. Ah, como era bonita minha irmã Elisa. Nossa
diferença de idade não era muito grande, mas aos doze anos eu ainda
não tinha peito enquanto ela, aos dezessete, já era uma mulher
exuberante.
Quando
o cuco tocou sete vezes peguei a última bolacha e saí correndo em
direção ao portão.
“Anita
vê se não some! Às dez e meia quero você em casa para tomar
banho!”, disse
a mama.
“Mama,
dez e meia é muito cedo!”, retruquei. “Deixa eu ficar até onze,
vou pra casa da Clementina”.
Clementina
ou Tina era minha melhor amiga. Eu adorava brincar com ela de
qualquer coisa. Amarelinha, estátua, boneca, dominó ou apenas
conversar sobre os últimos programas da Rádio Nacional. Sonhava ser
cantora. Morávamos numa rua sem saída, no bairro de Maria da Graça,
subúrbio do Rio de Janeiro. No início da década de 40 a
tranquilidade do nosso bairro só era quebrada quando passava o
português gritando “Ooooolha
o garrafeeeeiro!”.
Nesse
dia um som inesperado rompeu o silêncio da rua e fez minha família
calar-se para sempre. Motores de Buicks roncaram alto na entrada da
rua. Seis homens desceram de dois carros negros. Interrogaram de casa
em casa. A casa de Tina era coladinha com a nossa, no final da rua.
Eu e Tina paramos de brincar para observar a movimentação. Os
homens vieram rápido em nossa direção.
“Menina
...”
- disse um deles com voz rouca - “como
é seu nome?” .
“Anita,
senhor. Donati”.
“Onde
está sua irmã Elisa”?
“Lá
dentro, senhor”. Depois
reparei que os homens estavam armados.
Foi
tudo muito rápido. Os homens saíram puxando minha irmã pelos
cabelos. Os carros já estavam estacionados a nossa porta. A mama
gritava e colocava a mão na cabeça. Os carros saíram cantando
pneus. Pouco depois meus irmãos Toni e Mario chegaram esbaforidos,
suados, barba por fazer. A mama contou-lhes o que tinha acontecido. “
A polícia de Getúlio chegou
cedo. Eles perguntaram a Anita e por Eli...”.
A mama não conseguiu terminar a frase e tombou desmaiada. Enquanto
Mario acudia a mama, Toni sacudia-me pelos ombros gritando “Porque
você fez isso Anita? Porque?”
O
mês passou devagar. O canto da mama transformou-se num lamento, um
gemido. Meus irmãos entravam e saíam de casa, mal olhavam em minha
direção. Papá, por desgosto, não dormia mais em casa, ficava na
fábrica a semana toda. Dia e noite. Noite e dia. Aos domingos
chegava de mansinho para trazer a semanada e ver a mama. Mal
dirigia-me a palavra. Os vizinhos cochichavam quando nos viam. Um dia
escutei a mãe da Tina falando “eles
são comunistas”.
Eu e Clementina nunca mais brincamos juntas.
Num
domingo cinzento e frio levamos um grande susto com fortes palmas no
nosso portão. Papá foi ver quem era e demorou-se muito. Quando
retornou estava transtornado. Os olhos vermelhos em lágrimas.
Virou-se para mim e com muita raiva gritou “ Você
matou Elisa, menina faladeira, você matou Elisa”.
Mudamos
de cidade. Mudamos o sobrenome. Os Donatis vivos foram enterrados.
Elisa morta nunca teve um funeral, pois seu corpo jamais foi
encontrado. Esse dia nunca acabou para mim.
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