O trem corria velozmente por baixo da cidade que não dorme. Em outro subterrâneo distante, numa masmorra úmida de Pequim, seu sonho fora enterrado vivo. Com o olhar perdido entre o passado e o presente Ayra Cheng não planejava o futuro. Não havia futuro sem Huang Dishi.
-
"Próxima parada Grand Army Plaza", anunciou
uma voz quase inaudível no auto falante.
Ayra
levantou-se em direção à porta do vagão. Subiu rapidamente as
escadas de acesso à rua. Mesmo apressada seu andar era curto,
humilde e submisso. O olhar sempre baixo. Seu corpo longilíneo
contrastava com seu rosto largo, típico dos ascendentes mongóis. Os
dentes bem feitos há anos não sorriam mais.
Caminhou
por três quarteirões e entrou na lavanderia. Pendurou o casaco e o
gorro, tirou as luvas guardando-as na mochila. Os dedos deformados e
lisos não mais exibiam as linhas de nascença. O passaporte
informava em mandarin e inglês "sem digitais". Ayra olhou
para seus dedos apagados pelo trabalho de catadora de algodão nas
comunas agrícolas.
Lembrou-se
de sua chegada na América.
忆
Com
o encerramento das fazendas coletivas, no final dos anos 1980, ela
partiu para Shangai em busca de trabalho. Foi contratada como
camareira de uma cantora de ópera. Em 1993, durante uma turnê pelo
Canadá e América do Norte a cantora decidiu não mais retornar a
China. Um câncer repentino acabou com seu sonho de liberdade
americano e determinou o destino de Ayra.
O
dono da lavanderia Sr. Jian Ling dava-lhe as instruções de praxe
antes de deixar a loja. Mesmo trabalhando na lavanderia há mais de
vinte anos ela o escutava atenta e respeitosa, como se fosse a
primeira vez.
A
lavanderia abre de segunda a segunda, das 7:00 as 23 horas. Ayra
chega na lavanderia todos os dias as 16:30 horas, pontualmente. Faz o
turno das 17:00 as 23:00 horas. Dorme na lavanderia. Sai as 6:45 com
a chegada do Sr. Ling. Vaga pelas ruas de Nova York.
Há
dois anos resolveu deixar o quarto alugado em Chinatown. De segunda a
sexta passa as horas do dia revezando-se entre as bibliotecas e os
parques da cidade. Nos finais de semana freqüenta o templo budista
Mahayana ou o zen budista Fire Lotus. E assim a vida passa, sem
surpresas, sem vida.
Mesmo
vivendo nos Estados Unidos há tantos anos não usufruía das
facilidades da vida cotidiana daquele país. Seu inglês era
acanhado. Talvez por sua personalidade introvertida não conseguia
falar mais que três dezenas de frases, estudadas previamente para
cada situação. Talvez pensasse que não falando inglês preservaria
sua conexão com a China, sacralizando assim as doces lembranças de
sua adolescência vivida em Wuyuan.
Nesse
dia, uma quinta-feira outonal, dia de Halloween, nenhum cliente
entrara ou saíra desde as 22 horas. Ela já tinha recolhido as
moedas e anotado o lucro do dia. Finalmente o relógio marcou 23
horas. Fechou a porta e dirigiu-se ao pequeno aposento nos fundos da
loja.
Como
de costume montou a cama dobrável forrando-a com o velho lençol
puído e uma manta. Ligou o antigo rádio de ondas curtas buscando
uma estação de Hong Kong, sua preferida, que tocava músicas
folclóricas da região de Jiangxi.
Sintonizou
a estação e transportou-se à Wuyuan. Primavera de 1973.
梦
Da
janela de seu quarto via a neblina da manhã desvanecendo-se aos
poucos, descortinando a beleza dos campos amarelos. Aos poucos o céu
tornou-se azul acentuando as cores das copas das árvores. Na
primavera a natureza explodia em cores, do vermelho ao verde claro,
passando pelo laranja e amarelo. Meninos e meninas do curso de Artes
chegavam com seus cavaletes, tintas e pincéis à praça central,
esperando eternizar a natureza em suas telas.
O
dia passou devagar. Ayra lia e relia a carta de Huang,
certificando-se da hora e do local do encontro. A diferença de idade
entre eles não representava um problema para ela, que apaixonara-se
perdidamente por seu professor de física.
Huang
Dishi notabilizou-se nos estudos de matemática e física tendo se
graduado com a incrível idade de 15 anos. Agora aos 28 anos trocara
Shangai por Wuyuan, onde despertou seu interesse por politica e
experientaria o verdadeiro amor pela primeira vez em sua vida.
Ao
chegar a Qinghua, Ayra dirigiu-se para a ponte, local do encontro
escolhido por Huang. O por do sol pintava mais fortemente de vermelho
a bela paisagem. De repente Ayra sentiu as mãos macias de seu amado
cobrindo seus olhos. Com sua voz rouca Huang pediu que ela
adivinhasse quem era. A jovem virou-se e sorriu, deixando-se abraçar
pelo seu professor.
Essa
imagem se repete intacta. Depois outras cenas surgem como flashs
disformes, um mosaico despedaçado.
Acusações
de traição, a demissão de Huang Dishi. Soldados levando-o. Ela
chorando escondida. Medo de ser presa. Medo de fazê-lo sofrer mais.
Medo de seus pais que nada sabiam. Medo de morrer de amor aos 14
anos.
Lágrimas
escorrem pelos olhos oblíquos. Ela chora a prisão de Huang. Ela
chora a vida que não teve. Volta ao presente.
O
programa de músicas folclórias termina. É hora do noticiário,
normalmente Ayra desliga o rádio e dorme, mas nesse dia de Halloween
coisas estranhas podem acontecer numa lavanderia do Brooklyn.
Levanta-se,
vai até o pequeno fogão e coloca água para ferver. Pega o chá de
jasmim no armário. As vozes no rádio parecem distantes. Ela ainda
tenta reavivar a memória dos dias felizes ao lado de Huang.
O
apito da chaleira a desperta. Senta-se na cama. As vozes do rádio
agora estão em primeiro plano e noticiam mudanças na política de
Pequim.
"O
presidente Xi Jinping anunciou uma medida histórica: a abolição
dos campos de reeducação pelo trabalho. A decisão, divulgada pela
agência oficial chinesa Xinhua, foi aprovada na reunião plenária
do Comité Central do Partido Comunista Chinês, semana passada.
Milhares de pessoas serão beneficiadas. Cientistas, professores e
agricultores presos nos anos 70 e enviados aos campos de trabalho,
estão sendo libertados.
A
província de Wuyuan aguarda a chegada do físico e professor Huang
Dishi. Considerado um herói por denunciar ao exterior o tratamento
desumano nas Laogai, Dishi
finalmente
estará livre após longos 40 anos de detenção.
E
agora com vocês ..."
O
rosto de Ayra iluminou-se. Ela riu sozinha. Dançou sozinha segurando
sua xícara de chá de jasmin. Passava de uma hora da manhã. Ligou
para o Sr. Ling que ainda sonolento ouviu a voz alegre de Ayra
anunciando sua demissão. Pegou seu passaporte e os dólares
economizados. Nada impediria seu retorno. Prudente, compraria
passagem para Hong Kong. Somente de ida.
A
estação do metrô estava lotada de super heróis, palhaços e
bruxas que desembarcavam cansados e felizes. Na contra mão uma
senhora asiática não parava de rir. Seus dentes brancos e lindos
esboçavam uma felicidade genuína, sem fantasias, sem maquiagem.
O
trem corria velozmente por cima da cidade que não dorme, rumo ao
JFK.
福福福
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