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sábado, 31 de janeiro de 2015

Ayra Cheng


O trem corria velozmente por baixo da cidade que não dorme. Em outro subterrâneo distante, numa masmorra úmida de Pequim, seu sonho fora enterrado vivo. Com o olhar perdido entre o passado e o presente Ayra Cheng não planejava o futuro. Não havia futuro sem Huang Dishi.

- "Próxima parada Grand Army Plaza", anunciou uma voz quase inaudível no auto falante.

Ayra levantou-se em direção à porta do vagão. Subiu rapidamente as escadas de acesso à rua. Mesmo apressada seu andar era curto, humilde e submisso. O olhar sempre baixo. Seu corpo longilíneo contrastava com seu rosto largo, típico dos ascendentes mongóis. Os dentes bem feitos há anos não sorriam mais.

Caminhou por três quarteirões e entrou na lavanderia. Pendurou o casaco e o gorro, tirou as luvas guardando-as na mochila. Os dedos deformados e lisos não mais exibiam as linhas de nascença. O passaporte informava em mandarin e inglês "sem digitais". Ayra olhou para seus dedos apagados pelo trabalho de catadora de algodão nas comunas agrícolas.

Lembrou-se de sua chegada na América.

Com o encerramento das fazendas coletivas, no final dos anos 1980, ela partiu para Shangai em busca de trabalho. Foi contratada como camareira de uma cantora de ópera. Em 1993, durante uma turnê pelo Canadá e América do Norte a cantora decidiu não mais retornar a China. Um câncer repentino acabou com seu sonho de liberdade americano e determinou o destino de Ayra.

O dono da lavanderia Sr. Jian Ling dava-lhe as instruções de praxe antes de deixar a loja. Mesmo trabalhando na lavanderia há mais de vinte anos ela o escutava atenta e respeitosa, como se fosse a primeira vez.

A lavanderia abre de segunda a segunda, das 7:00 as 23 horas. Ayra chega na lavanderia todos os dias as 16:30 horas, pontualmente. Faz o turno das 17:00 as 23:00 horas. Dorme na lavanderia. Sai as 6:45 com a chegada do Sr. Ling. Vaga pelas ruas de Nova York.
Há dois anos resolveu deixar o quarto alugado em Chinatown. De segunda a sexta passa as horas do dia revezando-se entre as bibliotecas e os parques da cidade. Nos finais de semana freqüenta o templo budista Mahayana ou o zen budista Fire Lotus. E assim a vida passa, sem surpresas, sem vida.

Mesmo vivendo nos Estados Unidos há tantos anos não usufruía das facilidades da vida cotidiana daquele país. Seu inglês era acanhado. Talvez por sua personalidade introvertida não conseguia falar mais que três dezenas de frases, estudadas previamente para cada situação. Talvez pensasse que não falando inglês preservaria sua conexão com a China, sacralizando assim as doces lembranças de sua adolescência vivida em Wuyuan.

Nesse dia, uma quinta-feira outonal, dia de Halloween, nenhum cliente entrara ou saíra desde as 22 horas. Ela já tinha recolhido as moedas e anotado o lucro do dia. Finalmente o relógio marcou 23 horas. Fechou a porta e dirigiu-se ao pequeno aposento nos fundos da loja.

Como de costume montou a cama dobrável forrando-a com o velho lençol puído e uma manta. Ligou o antigo rádio de ondas curtas buscando uma estação de Hong Kong, sua preferida, que tocava músicas folclóricas da região de Jiangxi.

Sintonizou a estação e transportou-se à Wuyuan. Primavera de 1973.


Da janela de seu quarto via a neblina da manhã desvanecendo-se aos poucos, descortinando a beleza dos campos amarelos. Aos poucos o céu tornou-se azul acentuando as cores das copas das árvores. Na primavera a natureza explodia em cores, do vermelho ao verde claro, passando pelo laranja e amarelo. Meninos e meninas do curso de Artes chegavam com seus cavaletes, tintas e pincéis à praça central, esperando eternizar a natureza em suas telas.

O dia passou devagar. Ayra lia e relia a carta de Huang, certificando-se da hora e do local do encontro. A diferença de idade entre eles não representava um problema para ela, que apaixonara-se perdidamente por seu professor de física.

Huang Dishi notabilizou-se nos estudos de matemática e física tendo se graduado com a incrível idade de 15 anos. Agora aos 28 anos trocara Shangai por Wuyuan, onde despertou seu interesse por politica e experientaria o verdadeiro amor pela primeira vez em sua vida.

Ao chegar a Qinghua, Ayra dirigiu-se para a ponte, local do encontro escolhido por Huang. O por do sol pintava mais fortemente de vermelho a bela paisagem. De repente Ayra sentiu as mãos macias de seu amado cobrindo seus olhos. Com sua voz rouca Huang pediu que ela adivinhasse quem era. A jovem virou-se e sorriu, deixando-se abraçar pelo seu professor.

Essa imagem se repete intacta. Depois outras cenas surgem como flashs disformes, um mosaico despedaçado.

Acusações de traição, a demissão de Huang Dishi. Soldados levando-o. Ela chorando escondida. Medo de ser presa. Medo de fazê-lo sofrer mais. Medo de seus pais que nada sabiam. Medo de morrer de amor aos 14 anos.

Lágrimas escorrem pelos olhos oblíquos. Ela chora a prisão de Huang. Ela chora a vida que não teve. Volta ao presente.

O programa de músicas folclórias termina. É hora do noticiário, normalmente Ayra desliga o rádio e dorme, mas nesse dia de Halloween coisas estranhas podem acontecer numa lavanderia do Brooklyn.

Levanta-se, vai até o pequeno fogão e coloca água para ferver. Pega o chá de jasmim no armário. As vozes no rádio parecem distantes. Ela ainda tenta reavivar a memória dos dias felizes ao lado de Huang.

O apito da chaleira a desperta. Senta-se na cama. As vozes do rádio agora estão em primeiro plano e noticiam mudanças na política de Pequim.

"O presidente Xi Jinping anunciou uma medida histórica: a abolição dos campos de reeducação pelo trabalho. A decisão, divulgada pela agência oficial chinesa Xinhua, foi aprovada na reunião plenária do Comité Central do Partido Comunista Chinês, semana passada. Milhares de pessoas serão beneficiadas. Cientistas, professores e agricultores presos nos anos 70 e enviados aos campos de trabalho, estão sendo libertados.

A província de Wuyuan aguarda a chegada do físico e professor Huang Dishi. Considerado um herói por denunciar ao exterior o tratamento desumano nas Laogai, Dishi
finalmente estará livre após longos 40 anos de detenção.

E agora com vocês ..."

O rosto de Ayra iluminou-se. Ela riu sozinha. Dançou sozinha segurando sua xícara de chá de jasmin. Passava de uma hora da manhã. Ligou para o Sr. Ling que ainda sonolento ouviu a voz alegre de Ayra anunciando sua demissão. Pegou seu passaporte e os dólares economizados. Nada impediria seu retorno. Prudente, compraria passagem para Hong Kong. Somente de ida.

A estação do metrô estava lotada de super heróis, palhaços e bruxas que desembarcavam cansados e felizes. Na contra mão uma senhora asiática não parava de rir. Seus dentes brancos e lindos esboçavam uma felicidade genuína, sem fantasias, sem maquiagem.

O trem corria velozmente por cima da cidade que não dorme, rumo ao JFK.



福福福

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