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segunda-feira, 2 de março de 2015

Peixes e feiras



 
A feira livre é um dos lugares do meu afeto. Desde criancinha frequentava com papai a feira da rua Domingos Ferreira, em Copacabana. Tudo era mágico.

Os gritos dos feirantes, seus sorrisos. A sedução nas vendas. As barganhas dos fregueses. Lembro bem das jabuticabas doces e frescas vendidas a granel. O feirante simpático sempre me dava algumas e papai dizia "limpa na blusinha antes de comer".  O verde degradê das verduras. O sol refletido nas pequenas gotas d'água sobre as cascas amarelas das laranjas. Papai sempre comprava abacate. Sábado era dia de abacatada com limão.  Doces sabores da infância.


Certo dia fui a feira com mamãe o que não era muito comum naqueles dias.  Não sei porque ela usou o carrinho de bebê de minha irmã para fazer as compras. Com o carrinho cheio de laranjas, bananas, melancia, verduras, legumes e um grande Badejo de olho brilhante retornamos para casa. No elevador a porta pantográfica já começara a mover-se quando a intrometida vizinha do terceiro andar abriu furiosamente a porta e entrou, assustando-nos. 

Metida, a mulher abaixou-se na direção do carrinho, cuja capota ocultava o conteúdo, e exclamou estridente com seu mau hálito habitual "mas que bebê lindo"! Quando ela puxou a capota deu de cara com o olho brilhante do peixe morto. Rimos muito. A vizinha ficou tão sem graça que nunca mais puxou conversa com mamãe. Livramo-nos daquele hálito insuportável.

Seja em Copacabana, Tijuca, Glória, Botafogo, Humaitá ou na orgânica de Teresópolis,  feira para mim é sinônimo de alegria. Amo o  caldo de cana e o pastel de queijo da feira de Botafogo. E o suco verde na orgânica de Terê? Onde mais se pode comprar jaca doce e pegajosa? Na feira do Humaitá tem.

A orgânica de Teresópolis é uma experiência antropológica e uma viagem no tempo. Velhos hippies dos anos 70 juntam-se a jovens do século XXI e vendem abóboras morangas, enquanto dedilham blues ao violão. Doam sementes de tudo desde que o freguês comprometa-se plantar. A senhora dos sucos tem um rosto encantador, transmite paz e vende saúde. Não há pressa. Os produtores mostram orgulhosos seus produtos. Contam "causos". A feira é pequena e tão aconchegante que você entra e não quer mais sair.

Eu gosto de tudo nas feiras. Das mercadorias frescas e mais baratas à forma como os feirantes se tratam.  A camaradagem e respeito na disputa pelo freguês. Há um código de honra no trato dos feirantes que lembra as corporações de ofício da Idade Média.  O jeito galanteador de alguns feirantes é cativante.  "E aí freguesinha dos olhos de mar, o que vai hoje?"  

Arrisco dizer que saio da feira com cara de Monalisa. Sorrio para a vida.

Outro dia estava na barraca de verduras do Humaitá. Enquanto aguardava atendimento o feirante metido a engraçado começou a falar em voz alta. Queria ser um peixe. Ninguém disse nada. Uma segunda investida. Queira ser um peixe. Não resisti e cantei "pra no seu límpido aquário mergulhar". 

Tudo continua mágico.




terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Casamento adolescente

Verão de 1974. Na praia, como era de costume, a jovem sintoniza seu rádio de pilha na Mundial do Big Boy. Novos baianos, Mick Jagger, Ruy Maurity, Cat Stevens, Elton John, Hyldon, Lennon, Fagner. A música está no ar.  Sol, praia, chuva a tardinha. Trovoada, relâmpagos, cheirinho de ozônio. Nem mesmo os camburões da polícia militar parados nas esquinas de Copacabana tiram a beleza do momento.

Num segundo o céu fica negro. Pingos grossos molham as toalhas, barracas voam. Um amigo se aproxima e a ajuda a pegar suas coisas. O casal sai rapidamente da praia e corre em busca de uma marquise para proteger-se. São muito jovens, bronzeados, suados e molhados da chuva. Paixão e curiosidade. Como será o beijo? Pensamentos idênticos perpassam suas mentes, enquanto despretensiosamente conversam sobre assuntos corriqueiros.

Outro trovão ruge. Ela aproveita o susto para aconchegar-se naquele corpo moreno, suado e molhado da chuva. Os olhares se encontram, os rostos se aproximam. As bocas famintas abrem-se para se conhecer.  Ardor, paixão e identificação. O beijo é ótimo.

A estação mais quente do ano aquece os jovens corações no Rio de Janeiro.  É uma época de festas. A poucos dias do natal o astro rei ilumina  o céu do zodíaco no signo da cabra.  Seu amor é capricorniano.  Capricórnio é o regente de sua casa dos relacionamentos. A coincidência astrológica é bom presságio. Tudo vai dar certo. Há de dar certo, pensa a jovem geminiana.

A rebeldia e o espírito adolescente aceleram os acontecimentos. Não demora e chega a hora da entrega. Estranha, bonita e infinita.  Intuitivamente ela sabe como agir, só não esperava aquela dor. Uma pancada curta e seca. Tudo consumado. Ela volta para casa feliz e pronta para a nova vida. Adulta aos quinze anos. É um tempo de descobrir-se, virar-se ao avesso e viver.

Apaixonam-se.

Janis Joplin, Santana, The Moody Blues, Jethro Tull, Renaissance. "Você precisa conhecer o verdadeiro rock", dizia ele. Tudo encanta e ganha um significado especial. A bruma do amor envolve e entorpece os sentidos. Os papos, a música, os sonhos. A afinidade é total. Eles amam os bichos, conversam sobre tudo. Como a maioria dos jovens dessa época filosofam ao som do rock progressivo. O momento presente é intenso. E nesse mar calmo os meses escoam devagar.  Eles não se desgrudam nunca. Brigam, terminam, voltam e se amam. Sucessivamente. Não necessariamente nessa ordem.

O jovem capricorniano é moreno, bonito, tem corpo de modelo. Inteligente e meio desligado. Gentil e melancólico. Faz grandes planos para o futuro. Sonha ser piloto de fórmula 1. Quando seu xará morre num acidente de avião ele mata seu sonho de menino. Outros sonhos vem e vão. Melancolia.

A geminiana, que pensa saber das coisas, é na verdade uma menina querendo ser mulher, e tem pressa. É magra, miúda e míope. Dona de uma beleza antiga. Seus olhos verdes ficam escondidos sob os finos aros dos óculos de tartaruga, mas são lindos de qualquer jeito, mesmo que ela teime pensar o contrário! Adora usar vestidos longos e lenço na cabeça. Identifica-se com os hippies, os ciganos e os místicos. 

Tem um sonho secreto. Desenha seu futuro diante do espelho sem saber que tem o poder da bruxa. Um dia, meio de brincadeira, coloca um travesseiro por baixo do vestido longo marrom e fica admirando seu reflexo. Magia e barriga. Sua futura filha.


Dois anos depois, num outro dezembro, o Sol novamente percorre sua sétima casa e eles se casam. A caminho do cartório ela confessa a mãe que está com medo do casamento. O ambiente frio do cartório amplia ainda mais seus temores. A demora a serem chamados aumenta ainda mais sua angústia. Na sua  imaginação corre até a praia e respira o ar marinho. Retorna com o chamado do escrivão. Sente um frio na espinha. Será que ele também sentiu, pensa. Assinam o livro. Saem casados, ela emancipada. Sem casa, trabalho, com certidão de casamento e um bebê a caminho. 

Comemoram a noite no Dauphine, em Copacabana. Ele bebe até cair. Ela fica careta. Envelhece dez anos num dia.

Os primeiros anos são de construção, trabalho e fé. Novas concepções e redes se formam ao redor do jovem casal. As antigas teias se desfazem. Tornam-se cada vez mais estranhos. Decepções. Três anos depois chega a segunda filha. Agora eles são quatro. Sete anos depois o sonho termina

O amor adolescente é intenso. Para seguir adiante é preciso destruir o templo sagrado. Tarefa difícil e dolorosa. Com coragem a jovem pega a foice afiada e ceifa. Sobrevive. Prossegue cambaleante numa terra árida e desconhecida, a espera de outro amor num outro tempo, quem sabe.

Anos depois Fernanda Takai, no Youtube, a transporta para sua adolescência. Uma praia, um trovão, um casamento adolescente.

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada
Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada 








domingo, 1 de fevereiro de 2015

O dia que não acabou


Ao sentir os primeiros raios de sol pulei da cama e coloquei meu vestido preferido, de xadrez vermelho com babados e sianinha branca. Na cozinha a mama cozinhava batatas e já se podia sentir o cheirinho gostoso de leitão assado. Sentei à mesa da copa onde ela serviu-me um copo de leite frio e um prato com quatro bolachas sem manteiga. Manteiga só comíamos aos domingos.

Enquanto eu engolia o café da manhã o mais rápido possível, a mama cantarolava baixinho as músicas de sua terra natal. Era uma mulher quieta e muito boa a minha mama. Papá quase não se via durante a semana, ele saía muito cedo para a fábrica. Toni e Mario, meus irmãos mais velhos, há tempos não apareciam em casa. Elisa estava no quarto maquiando. Ah, como era bonita minha irmã Elisa. Nossa diferença de idade não era muito grande, mas aos doze anos eu ainda não tinha peito enquanto ela, aos dezessete, já era uma mulher exuberante.

Quando o cuco tocou sete vezes peguei a última bolacha e saí correndo em direção ao portão.
Anita vê se não some! Às dez e meia quero você em casa para tomar banho!”, disse a mama.
Mama, dez e meia é muito cedo!”, retruquei. “Deixa eu ficar até onze, vou pra casa da Clementina”.

Clementina ou Tina era minha melhor amiga. Eu adorava brincar com ela de qualquer coisa. Amarelinha, estátua, boneca, dominó ou apenas conversar sobre os últimos programas da Rádio Nacional. Sonhava ser cantora. Morávamos numa rua sem saída, no bairro de Maria da Graça, subúrbio do Rio de Janeiro. No início da década de 40 a tranquilidade do nosso bairro só era quebrada quando passava o português gritando “Ooooolha o garrafeeeeiro!”.

Nesse dia um som inesperado rompeu o silêncio da rua e fez minha família calar-se para sempre. Motores de Buicks roncaram alto na entrada da rua. Seis homens desceram de dois carros negros. Interrogaram de casa em casa. A casa de Tina era coladinha com a nossa, no final da rua. Eu e Tina paramos de brincar para observar a movimentação. Os homens vieram rápido em nossa direção.

Menina ...” - disse um deles com voz rouca - “como é seu nome?” .
Anita, senhor. Donati”.
Onde está sua irmã Elisa”?
Lá dentro, senhor”. Depois reparei que os homens estavam armados.

Foi tudo muito rápido. Os homens saíram puxando minha irmã pelos cabelos. Os carros já estavam estacionados a nossa porta. A mama gritava e colocava a mão na cabeça. Os carros saíram cantando pneus. Pouco depois meus irmãos Toni e Mario chegaram esbaforidos, suados, barba por fazer. A mama contou-lhes o que tinha acontecido. “ A polícia de Getúlio chegou cedo. Eles perguntaram a Anita e por Eli...”. A mama não conseguiu terminar a frase e tombou desmaiada. Enquanto Mario acudia a mama, Toni sacudia-me pelos ombros gritando “Porque você fez isso Anita? Porque?”

O mês passou devagar. O canto da mama transformou-se num lamento, um gemido. Meus irmãos entravam e saíam de casa, mal olhavam em minha direção. Papá, por desgosto, não dormia mais em casa, ficava na fábrica a semana toda. Dia e noite. Noite e dia. Aos domingos chegava de mansinho para trazer a semanada e ver a mama. Mal dirigia-me a palavra. Os vizinhos cochichavam quando nos viam. Um dia escutei a mãe da Tina falando “eles são comunistas”. Eu e Clementina nunca mais brincamos juntas.

Num domingo cinzento e frio levamos um grande susto com fortes palmas no nosso portão. Papá foi ver quem era e demorou-se muito. Quando retornou estava transtornado. Os olhos vermelhos em lágrimas. Virou-se para mim e com muita raiva gritou “ Você matou Elisa, menina faladeira, você matou Elisa”.

Mudamos de cidade. Mudamos o sobrenome. Os Donatis vivos foram enterrados. Elisa morta nunca teve um funeral, pois seu corpo jamais foi encontrado. Esse dia nunca acabou para mim.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Ayra Cheng


O trem corria velozmente por baixo da cidade que não dorme. Em outro subterrâneo distante, numa masmorra úmida de Pequim, seu sonho fora enterrado vivo. Com o olhar perdido entre o passado e o presente Ayra Cheng não planejava o futuro. Não havia futuro sem Huang Dishi.

- "Próxima parada Grand Army Plaza", anunciou uma voz quase inaudível no auto falante.

Ayra levantou-se em direção à porta do vagão. Subiu rapidamente as escadas de acesso à rua. Mesmo apressada seu andar era curto, humilde e submisso. O olhar sempre baixo. Seu corpo longilíneo contrastava com seu rosto largo, típico dos ascendentes mongóis. Os dentes bem feitos há anos não sorriam mais.

Caminhou por três quarteirões e entrou na lavanderia. Pendurou o casaco e o gorro, tirou as luvas guardando-as na mochila. Os dedos deformados e lisos não mais exibiam as linhas de nascença. O passaporte informava em mandarin e inglês "sem digitais". Ayra olhou para seus dedos apagados pelo trabalho de catadora de algodão nas comunas agrícolas.

Lembrou-se de sua chegada na América.

Com o encerramento das fazendas coletivas, no final dos anos 1980, ela partiu para Shangai em busca de trabalho. Foi contratada como camareira de uma cantora de ópera. Em 1993, durante uma turnê pelo Canadá e América do Norte a cantora decidiu não mais retornar a China. Um câncer repentino acabou com seu sonho de liberdade americano e determinou o destino de Ayra.

O dono da lavanderia Sr. Jian Ling dava-lhe as instruções de praxe antes de deixar a loja. Mesmo trabalhando na lavanderia há mais de vinte anos ela o escutava atenta e respeitosa, como se fosse a primeira vez.

A lavanderia abre de segunda a segunda, das 7:00 as 23 horas. Ayra chega na lavanderia todos os dias as 16:30 horas, pontualmente. Faz o turno das 17:00 as 23:00 horas. Dorme na lavanderia. Sai as 6:45 com a chegada do Sr. Ling. Vaga pelas ruas de Nova York.
Há dois anos resolveu deixar o quarto alugado em Chinatown. De segunda a sexta passa as horas do dia revezando-se entre as bibliotecas e os parques da cidade. Nos finais de semana freqüenta o templo budista Mahayana ou o zen budista Fire Lotus. E assim a vida passa, sem surpresas, sem vida.

Mesmo vivendo nos Estados Unidos há tantos anos não usufruía das facilidades da vida cotidiana daquele país. Seu inglês era acanhado. Talvez por sua personalidade introvertida não conseguia falar mais que três dezenas de frases, estudadas previamente para cada situação. Talvez pensasse que não falando inglês preservaria sua conexão com a China, sacralizando assim as doces lembranças de sua adolescência vivida em Wuyuan.

Nesse dia, uma quinta-feira outonal, dia de Halloween, nenhum cliente entrara ou saíra desde as 22 horas. Ela já tinha recolhido as moedas e anotado o lucro do dia. Finalmente o relógio marcou 23 horas. Fechou a porta e dirigiu-se ao pequeno aposento nos fundos da loja.

Como de costume montou a cama dobrável forrando-a com o velho lençol puído e uma manta. Ligou o antigo rádio de ondas curtas buscando uma estação de Hong Kong, sua preferida, que tocava músicas folclóricas da região de Jiangxi.

Sintonizou a estação e transportou-se à Wuyuan. Primavera de 1973.


Da janela de seu quarto via a neblina da manhã desvanecendo-se aos poucos, descortinando a beleza dos campos amarelos. Aos poucos o céu tornou-se azul acentuando as cores das copas das árvores. Na primavera a natureza explodia em cores, do vermelho ao verde claro, passando pelo laranja e amarelo. Meninos e meninas do curso de Artes chegavam com seus cavaletes, tintas e pincéis à praça central, esperando eternizar a natureza em suas telas.

O dia passou devagar. Ayra lia e relia a carta de Huang, certificando-se da hora e do local do encontro. A diferença de idade entre eles não representava um problema para ela, que apaixonara-se perdidamente por seu professor de física.

Huang Dishi notabilizou-se nos estudos de matemática e física tendo se graduado com a incrível idade de 15 anos. Agora aos 28 anos trocara Shangai por Wuyuan, onde despertou seu interesse por politica e experientaria o verdadeiro amor pela primeira vez em sua vida.

Ao chegar a Qinghua, Ayra dirigiu-se para a ponte, local do encontro escolhido por Huang. O por do sol pintava mais fortemente de vermelho a bela paisagem. De repente Ayra sentiu as mãos macias de seu amado cobrindo seus olhos. Com sua voz rouca Huang pediu que ela adivinhasse quem era. A jovem virou-se e sorriu, deixando-se abraçar pelo seu professor.

Essa imagem se repete intacta. Depois outras cenas surgem como flashs disformes, um mosaico despedaçado.

Acusações de traição, a demissão de Huang Dishi. Soldados levando-o. Ela chorando escondida. Medo de ser presa. Medo de fazê-lo sofrer mais. Medo de seus pais que nada sabiam. Medo de morrer de amor aos 14 anos.

Lágrimas escorrem pelos olhos oblíquos. Ela chora a prisão de Huang. Ela chora a vida que não teve. Volta ao presente.

O programa de músicas folclórias termina. É hora do noticiário, normalmente Ayra desliga o rádio e dorme, mas nesse dia de Halloween coisas estranhas podem acontecer numa lavanderia do Brooklyn.

Levanta-se, vai até o pequeno fogão e coloca água para ferver. Pega o chá de jasmim no armário. As vozes no rádio parecem distantes. Ela ainda tenta reavivar a memória dos dias felizes ao lado de Huang.

O apito da chaleira a desperta. Senta-se na cama. As vozes do rádio agora estão em primeiro plano e noticiam mudanças na política de Pequim.

"O presidente Xi Jinping anunciou uma medida histórica: a abolição dos campos de reeducação pelo trabalho. A decisão, divulgada pela agência oficial chinesa Xinhua, foi aprovada na reunião plenária do Comité Central do Partido Comunista Chinês, semana passada. Milhares de pessoas serão beneficiadas. Cientistas, professores e agricultores presos nos anos 70 e enviados aos campos de trabalho, estão sendo libertados.

A província de Wuyuan aguarda a chegada do físico e professor Huang Dishi. Considerado um herói por denunciar ao exterior o tratamento desumano nas Laogai, Dishi
finalmente estará livre após longos 40 anos de detenção.

E agora com vocês ..."

O rosto de Ayra iluminou-se. Ela riu sozinha. Dançou sozinha segurando sua xícara de chá de jasmin. Passava de uma hora da manhã. Ligou para o Sr. Ling que ainda sonolento ouviu a voz alegre de Ayra anunciando sua demissão. Pegou seu passaporte e os dólares economizados. Nada impediria seu retorno. Prudente, compraria passagem para Hong Kong. Somente de ida.

A estação do metrô estava lotada de super heróis, palhaços e bruxas que desembarcavam cansados e felizes. Na contra mão uma senhora asiática não parava de rir. Seus dentes brancos e lindos esboçavam uma felicidade genuína, sem fantasias, sem maquiagem.

O trem corria velozmente por cima da cidade que não dorme, rumo ao JFK.



福福福