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quinta-feira, 28 de julho de 2016

O que me assombra

Me assombra

Mirar o passado e não mais me ver naquelas polaroides
Andar por ruas desérticas de seres inalcançáveis
Penetrar o olhar gélido do magnata descalço com seu terno de grife
Acordar-me para a Terra agonizante com seus rios esvaziados
Perceber que o sangue se esvai em corações enfraquecidos
Ver cavalos puro sangue trotando em fuga ao avanço da artilharia
O ferro contorcido que destrói o humano em nós
A espada que presa à bigorna mata nossos mitos

Me assombra

O chocalhar incessante dos sinos da catedral anunciando o fim da guerra
O beijo profundo, atemporal e único dos amantes na ponte Neuf
O arrepio no final da espinha quando canto Geraldo Vandré
Nuvens de desenho animado no céu anil da cidade dos meu sonhos
O riso farto da criança quando seu pai a atira pelos ares levando meu coração à boca
O riso nervoso da bailarina em agradecimento à salva de palmas incessante
Crianças e cachorros correndo atrás das bolhas de sabão furta cor
Um barco a vela navegando rumo ao último porto seguro da Terra

E porque me assombra isso ou aquilo
Escrevi esse pequeno poema
Sem rimas ou métricas
Que me aprisionasse em conceitos
E engessasse minh'alma
Fazendo fugir o coração


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Linha, agulha e resistência


Joana desceu do táxi a algumas quadras do Memorial. Precisava caminhar. O vento outonal zunia e desenhava um redemoinho de folhas à sua frente. Tremeu de frio e apreensão. Olhou para o alto buscando um espaço vazio entre os arranha-céus.  Apesar das nuvens negras e da previsão de tempestade, não desistiria.
Três quadras depois a chuva irrompeu.  Pingos grossos obrigaram-na a buscar abrigo na marquise mais próxima.  Entre as árvores avistou o Memorial do Rio Grande do Sul. Até que enfim cheguei, murmurou para si mesma.
No Memorial, o ambiente tranquilo era um refúgio. Algumas pessoas entravam apenas para escapar da chuva. Esse não era o seu caso. Definitivamente. A recepcionista entregou-lhe a chave de um armário para a guarda dos pertences e indicou-lhe o livro de presença. Joana Muñoz, assinou. Guardou a chave no bolso apertado do jeans e iniciou sua jornada.
Joana deslizava pelos corredores. Seu andar de bailarina conferia-lhe leveza e um ar aristocrático. A brancura da pele e os olhos azuis, quase marinhos, harmonizavam-se com os cabelos ruivos. Os olhos levemente assimétricos emoldurados por espessas sobrancelhas expressavam mistério. O nariz aquilino indígena, herança de seus avós paternos, contrastava o biotipo europeu. 
Ao chegar na sala da exposição Arpilleras e Resistência, arrepiou-se. Cruzou o umbral deparando-se com um salão ornado com diversos painéis.

“A arpillera é uma técnica têxtil chilena. Possui raízes numa antiga tradição popular iniciada por um grupo de bordadeiras de Isla Negra. As peças apresentadas nesta exposição foram montadas em pano rústico geralmente fabricados em cânhamo ou linho grosso”, leu à entrada da sala.

Reproduções de jornais de época e informes intercalavam as cenas de um cotidiano tenebroso bordadas em tecidos rústicos, como sacos de farinha ou batatas. As arpilleras. Representação inocente como a arte naïf. Bordados em cores vivas dão vida a um passado sombrio. 
O som de uma música clássica quase inaudível preenchia a sala. Chile, 1973. Morte de Allende. Ascensão de Pinochet.  Arpilleras são enviadas clandestinamente a países europeus rompendo o silêncio imposto pelo golpe militar. No verso bolsos invisíveis transportavam cartas das bordadeiras denunciando os horrores da ditadura.
Outro painel dava um informe sobre mortos e desaparecidos chilenos. 

“A revisão final dos trabalhos da Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura (Comissão Valech) estabeleceu um total de mais de 40.000 vítimas de violações de direitos humanos entre 1973 e 1990. O número total de pessoas oficialmente dadas como desaparecidas ou assassinadas é de 3.216, enquanto 38.254 são reconhecidas como sobreviventes de prisão política e tortura."

Extasiada com a força e a beleza dos trabalhos Joana caminhava lentamente apreciando cada detalhe das arpilleras. Uma representando a luta de lavradores pela posse da terra a fez lembrar-se de sua mãe cantando “El  arado”, de Victor Jara. Suspirou. Os bordados ressignificavam seu presente.
Entrou numa pequena sala ao som de Dvorák. À esquerda uma arpillera exerceu seu poder imagético sobre ela hipnotizando-a. Era uma peça muito colorida. Um sol vermelho no centro. Algumas pessoas seguravam um cartaz onde se lia as palavras paz, justiça e liberdade. 

“Esta arpillera segue as formas, técnicas e desenhos típicos da época. Expressa uma ação de protesto não violento num subúrbio de Santiago. Na elaboração desta arpillera foram utilizados, dentre outros, retalhos de uma camisa quadriculada de um desaparecido.”

A adrenalina percorreu suas veias congelando fibras e músculos.  O  acorde solitário do cello da música de Dvorák vibrou em sua espinha dorsal transportando-a para um Chile oprimido e dominado por uniformes, tanques e fuzis. Penetrou uma memória que não era a dela. Com os olhos da alma viu um círculo formado por seis mulheres cosendo. Elas cantarolavam baixinho enquanto alinhavavam com linhas coloridas suas vidas doloridas. 
Uma mulher de coque branco e duas grandes bolsas abaixo dos olhos oblíquos levantou a cabeça e a encarou. Joana assustou-se. A mulher a olhava mas não a via.  Com suas mãos enrugadas segurava o tecido rústico. Arrematou a linha vermelha. Abriu um cesto de retalhos e retirou um pedaço de tecido quadriculado. Segurou o pano e afagou-o no rosto. Chorou. Sem alarde. Lágrimas abundantes buscavam caminho entre os sulcos da pele mapuche. Outra mulher levantou-se e a consolou.
Agora a mulher de coque branco está colocando, cuidadosamente, uma carta atrás da arpillera. Batem à porta. Trêmula ela gira a maçaneta.  Entrega o pacote a um velho elegante trajando um terno cinza de tweed. 
Outra cena. A mulher desfaz o coque. Seus cabelos brancos espessos e volumosos   descem pelos ombros. Veste uma camisola de linho cru. Assusta-se com fortes pancandas. A porta se abre. Homens fardados entram e arrastam-na pelos cabelos. 

“Quem você pensa que é? Quer nos trapacear como fez seu filho? O filho do demônio”. O homem escarra no chão e grita. “Pegamos a mãe de Diaz Muñoz. Vamos calar a mãe como fizemos com o filho.”    

A mulher desmaia. 

Joana desperta. Pisca os olhos líquidos. Novamente entra em transe como se quisesse consertar a última imagem. Sofre. A cena das mulheres cosendo retorna. Agora são cinco.  Clamam por justiça. Bordam seus filhos, maridos, irmãos, sobrinhos e cunhados desaparecidos. Os fios os mantém vivos. Elas sobrevivem emparedadas nessa sala atemporal. Cosendo. Apenas cosendo.
De volta a Madrid Joana prepara-se para a apresentação da coreografia “Los aparecidos". Amarra as sapatilhas. Concentra-se. Olha-se no espelho e vê o reflexo da foto de uma arpillera na parede oposta do camarim. Seu amuleto. Fecha os olhos. Imagina o pai muito jovem panfletando pelas ruas escuras de Santiago usando uma velha camisa xadrez.  A campainha toca pela terceira vez. Hora de encenar. Hora de dançar e honrar a memória dos seus desaparecidos.