O dia cinzento e a chuva fininha
escorrendo pela vidraça foram o convite ideal para revisitar o
passado.
Abri o baú de fotografias e dentre imagens posadas,
falsos sorrisos, casamentos, batizados, formaturas, carnavais e
viagens, um pequeno instantâneo em preto e branco chamou atenção.
Aliás, desde criança essa foto incomodava, talvez porque tenha
capturado um momento familiar de grande apreensão que somente agora
sou capaz de perceber com meu olhar adulto.
Procuro nos detalhes da
imagem pistas do local e período. Minha memória se aguça. A foto
coloriza.
Anos 70. Num final de semana três
irmãos encontram-se após um longo afastamento. Esse é um encontro
raro, principalmente nesses tempos de tanques, armas, uniformes verde oliva e vigília.
Enquanto eu e minha “mana” nos esbaldamos na piscina, os irmãos
rompem o silêncio e são flagrados pela câmera de papai.
Uma das mulheres é mamãe. Seu bronzeado contrasta com o cabelo louríssimo.
Seus pés pequenos ainda não estam deformados pelos joanetes que
hoje tanto a fazem sofrer. Ela está linda como sempre foi.
Tio Alberto está sentado entre as irmãs, não se vê sua fisionomia
porque no momento do registro
voltou-se para minha Maducha à sua direita, ficando de costas para
o fotógrafo.
As irmãs olham o infinito tentando vislumbrar um
futuro melhor para Alberto.
Meu tio, com seu jeitão expansivo e
persuasivo, certamente está a contar-lhes seus planos políticos. O
retorno ao partidão onde em 1947, sob sua legenda, concorreu a uma
vaga de deputado estadual pelo Piauí. “Preciso levantar uma
grande soma de dinheiro para financiar a luta” - diz ele
entusiasticamente.
Fala sobre a necessidade dos exilados, que há uma
articulação entre militares, empresários e políticos pela
anistia, do contato com um amigo, político influente, que
prometeu-lhe um bom emprego quando a ditadura acabar, e por aí vai.
As duas ficam cada vez mais perplexas e preocupadas. Preocupam-se com
o destino do irmão politizado e perseguido.Perseguido por suas ideias
revolucionárias. Perseguido por um destino cruel. Perseguido pela
garrafa de cachaça.
Essa é minha última lembrança do meu
tio vivo. Um homem inteligente, engraçado, sensível, sofrido,
alcoólatra.
Bebia porque sua mulher e filho morreram no incêndio do
circo de Niterói nos anos 60.
Bebia porque perdera seu emprego
perseguido pela ditadura militar.
Bebia porque tinha uma filha que
sofria a perda da mãe e do irmão.
Bebia porque queria morrer.
Bebia para ficar próximo de sua Leocádia.
Em 1974 finalmente juntou-se a ela.
Conheço esta história prima, só não conhecia a foto. Que praia é essa? bjs
ResponderExcluirEssa foto foi tirada numa casa em Friburgo. Juntei uma verdade daqui, outra dali e imaginei essa conversa. Bjs
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