Wikipedia

Resultados da pesquisa

domingo, 2 de maio de 2021

A conversação

 


O dia cinzento e a chuva fininha escorrendo pela vidraça foram o convite ideal para revisitar o passado. 

Abri o baú de fotografias e dentre imagens posadas, falsos sorrisos, casamentos, batizados, formaturas, carnavais e viagens, um pequeno instantâneo em preto e branco chamou atenção.
 
Aliás, desde criança essa foto incomodava, talvez porque tenha capturado um momento familiar de grande apreensão que somente agora sou capaz de perceber com meu olhar adulto. 

Procuro nos detalhes da imagem pistas do local e período. Minha memória se aguça. A foto coloriza.

Anos 70. Num final de semana três irmãos encontram-se após um longo afastamento. Esse é um encontro raro, principalmente nesses tempos de tanques, armas, uniformes verde oliva e vigília. 

Enquanto eu e minha “mana” nos esbaldamos na piscina, os irmãos rompem o silêncio e são flagrados pela câmera de papai. 

Uma das mulheres é mamãe. Seu bronzeado contrasta com o cabelo louríssimo. Seus pés pequenos ainda não estam deformados pelos joanetes que hoje tanto a fazem sofrer. Ela está linda como sempre foi. 

Tio Alberto está sentado entre as irmãs, não se vê sua fisionomia porque no momento do registro voltou-se para minha Maducha à sua direita, ficando de costas para o fotógrafo. 

As irmãs olham o infinito tentando vislumbrar um futuro melhor para Alberto.

Meu tio, com seu jeitão expansivo e persuasivo, certamente está a contar-lhes seus planos políticos. O retorno ao partidão onde em 1947, sob sua legenda, concorreu a uma vaga de deputado estadual pelo Piauí. “Preciso levantar uma grande soma de dinheiro para financiar a luta” - diz ele entusiasticamente. 

Fala sobre a necessidade dos exilados, que há uma articulação entre militares, empresários e políticos pela anistia, do contato com um amigo, político influente, que prometeu-lhe um bom emprego quando a ditadura acabar, e por aí vai. 

As duas ficam cada vez mais perplexas e preocupadas. Preocupam-se com o destino do irmão politizado e perseguido.Perseguido por suas ideias revolucionárias. Perseguido por um destino cruel. Perseguido pela garrafa de cachaça.

Essa é minha última lembrança do meu tio vivo. Um homem inteligente, engraçado, sensível, sofrido, alcoólatra. 

Bebia porque sua mulher e filho morreram no incêndio do circo de Niterói nos anos 60. 

Bebia porque perdera seu emprego perseguido pela ditadura militar. 

Bebia porque tinha uma filha que sofria a perda da mãe e do irmão. 

Bebia porque queria morrer. 

Bebia para ficar próximo de sua Leocádia. 

Em 1974 finalmente juntou-se a ela.

Natal na Alsácia

Dia desses lembrei-me de um momento muito especial. Meu primeiro natal sem minha família. Em outro país, com outra família. Um belo e místico natal na Alsácia.

Como uma super mãe como eu foi parar em outro país, com outra família numa data tão simbólica? O ano de 2004 foi de muitas revelações e decisões, a começar por um reflexão sobre o meu papel como mãe.

Muito jovem senti as dores do parto. Talvez por isso tivesse grande necessidade de provar aos amigos e a família que reunia os atributos ideais de uma mãezinha: capacidade de cuidar, proteger e ensinar. Com o tempo comecei a perceber que educar uma criança era uma via de mão dupla. Nessa simbiose incorporei o melhor da personalidade de minhas filhas, e procurei dar o meu melhor. Respiração e inspiração. Sístole e diástole.

Como amava ser mãe expandi a maternidade para o nosso pequeno clã feminino. Proteger, agregar e contemporizar as fortes personalidades ao meu redor era meu lema.

Nesse ano recebi um convite tentador e inimaginável. Passar o natal na companhia de uma querida amiga que vivia na França com seu marido e sua filhinha de 5 anos. Na folga deles, no final daquele ano, alugaríamos uma casa em Wangenbourg-Engenthal, na Alsácia, e poderíamos percorrer de carro as belas cidadelas do entorno, todas ricamente enfeitadas para o Natal.

Passar o natal longe da família? Se minha amiga tivesse feito esse convite um ano antes certamente eu teria dito não, mas naquele momento minhas inquietudes impulsionaram-me a dizer SIM! Incorporei a personalidade forte e independente da primogênita, a ousadia e coragem da caçula. Resolvi aproveitar a ocasião e me expandir numa viagem sozinha antes de reunir-me com minha amiga e sua família. O roteiro escolhido foi Burgges, na Bélgica e Saint Malo, na França.

Como minhas “meninas" reagiriam  Minha mãe? Minha irmã, sobrinha e tia? Afinal eu nunca havia passado o natal longe do clã.

Além das reflexões acerca do meu desempenho familiar tive outro combustível impulsionando minha busca de aventura. No início desse mesmo ano recebi a visita inesperada de um amor do passado. Durante duas semanas experimentei uma montanha russa emocional com um desfecho intempestivo. Corte sem possibilidade de retorno. A ressaca amorosa durou meses e depois de muitas lágrimas e algumas doses de whisky  caí na real. Amadureci. Enterrei esse amor.

Voltando a viagem ... As meninas e minha irmã ficaram muito animadas com a idéia e me deram a maior força. A tia, a princípio ressabiada, alegrou-se quando soube que, apesar de minha ausência, a ceia de natal estava garantida. Mamãe ficou triste por ficar longe da filha mas conformou-se. E eu? Fiquei excitadíssima com a idéia de buscar a cura nas montanhas rosadas da Alsácia gelada.

O segundo semestre passou rápido e logo chegou o mês de dezembro. Saí do Rio dia 10 rumo a Paris onde reencontrei minha amiga querida. Foi um grande prazer ver seu progresso, sua casa linda e bem decorada, sua aptidão para os trabalhos manuais. Sua filhinha que eu havia conhecido aos três meses de idade estava agora com 5 anos. Uma menina linda e muito inteligente falando um português charmoso carregado nos erres. O marido de minha amiga foi muito acolhedor e encorajou-me a treinar com ele meu francês enferrujado.

O primeiro final de semana passamos juntas matando as saudades. Fomos ao Chateau de Vincennes, a Notre Dame, ao Quartier Latin  e passeamos despretensiosamente pelas ruas de Paris. No inverno parisiense fumaças saem das chaminés conferindo a cidade um ar de cinema noir. Nas esquinas outras fumaças aguçavam nossos sentidos. Castanhas assadas. Comer castanha quentinha nas ruas frias de Paris é um presente.

Depois de um final de semana muito agradável na manhã da segunda-feira parti para minha pequena/grande aventura. Sem lenço, com documento. Sem passagens ou reservas de hotel, afinal era parte do script não ter endereço fixo. De fixo só o destino. Paris-Brugges-Paris-Saint Malo-Paris. Peguei o mesmo trem de meus amigos. Eles desceram na estação de Vincennes e eu na Gare du Nord onde comprei meu bilhete para a Bélgica.

Lembram do francês enferrujado? Pois é, quase perdi meu trem para Brugges por conta da confusão que fiz entre o número da plataforma e o do carro do trem. A magia da viagem começou nesse exato momento. Dois homens trabalhando na plataforma prestaram atenção no meu ir e vir a procura do trem e me ajudaram. Um deles pegou minha mala e levou-me rapidamente para a plataforma em frente, de onde meu trem  partiu em menos de 3 minutos. Ufa!

Cheguei em Brugges por volta das quatro horas da tarde, pouco antes de escurecer. Não tinha reserva de hotel. Contando com meu senso de direção saí da estação e avistei, do outro lado da rua, um montão de bicicletas estacionadas. O centro histórico devia estar logo adiante, pensei. Alguns passos e estava no centro histórico de Brugges. Caminhei um pouco mais, virei a esquerda numa ruela e vi um pequeno e charmoso hotel. Entrei e registrei-me. O quarto era simples e acolhedor. Deixei a mala e parti para o reconhecimento.



A cada quadra a arquitetura mostrava-se mais e mais linda. O natal estava em toda parte, nas ruas , nas portas e janelas. Mas a surpresa maior estava guardada, ou melhor, embrulhada. Ao dirigir-me para a praça central Markt deparei-me com uma casa envolta num grande laço de fita vermelho. Embrulhada para presente. Um encanto.





Após ver algumas belas vitrines aconcheguei-me num bistrô onde comi uma pasta deliciosa acompanhada de um tinto honesto. A noite chegou rápida. Por precaução logo após a degustação retornei ao hotel. No caminho de volta as bicicletas antes estacionadas agora trafegavam. 
Com seus faróis acesos formavam desenhos de luz em meio a escuridão das vielas. Dormi feliz.

Pela primeira vez desfrutei da solidão que não é solitária. Sentia-me protegida na companhia de desconhecidos. Só e ao mesmo tempo acompanhada.

Três dias depois tomei um trem para Paris e de lá para Saint Malo. Cheguei a noitinha e entrei no primeiro hotel que avistei em frente à estação. Saint Malo é uma cidade irresistível, uma fortaleza medieval. Lá passei apenas dois dias, mas foram inesquecíveis. Caminhar pelas ruelas de paralelepípedos, apreciar o mar misterioso da Bretanha e degustar meu menu preferido "plat du fromage e vinho da casa" foram pequenos prazeres que me fizeram grande naqueles poucos dias. O Grand Aquarium foi uma outra diversão bem bacana. Lá joguei-me em grandes almofadas no chão enquanto tubarões e baleias nadavam ao meu redor, ao som de New age.

Ao contrário do que possam pensar, a música não era chata. Aliás nada me chateou na minha viagem comigo mesma, o único susto foi um vendaval. Ou melhor um vento mais forte porque pelo visto só assustou a mim, marinheira de primeira viagem.

Depois de cinco dias viajando sozinha sentia-me renovada. Feliz retornei a Paris, para a casa de minha amiga que me aguardava animadíssima para nossa viagem a Alsácia.


No dia seguinte partimos para nossa aventura. No carro conversávamos sobre tudo em vários idiomas. Português, francês e num dialeto inventado por mim, que misturava o melhor das duas línguas. Por conta desse novo vocabulário demos muitas risadas.

No final da tarde chegamos a nossa casinha, o gîte nº 1568 do Gîtes de France. Pequena e acolhedora. Eu e a filha de minha amiga ficamos juntas num quarto com uma sensacional vista das montanhas. No dia seguinte acordei e fui direto para a janela. A luz fraca do Sol coloriu de rosa a neve branca. Senti-me grata por desfrutar daquele cartão postal com pessoas tão queridas.


Vista da janela


Os dias que precederam o Natal foram de passeios e deslumbramento. Fomos a um castelo medieval espetacular, o château Haut-Kœnigsbourg. Compramos artesanatos nas feiras natalinas. Em outro dia tomamos vinho quente para nos aquecer. Numa igreja surpreendi-me com a decoração interna com pequenos pinheiros que pendiam do teto ornamentados com maçãs vermelhas, símbolo do jardim do Éden. Sem dúvida fizemos uma viagem no tempo.

Na tarde do dia 24 busquei um orelhão para ligar para casa. Nessa ocasião não tínhamos celulares o que tornava as ligações telefônicas verdadeiros eventos. Foi com emoção que falei com as mulheres da minha vida. Disse as minhas filhas que antes da meia noite faria uma mentalização e que, apesar da distância física, estaríamos juntas em pensamento.

De volta para casa preparamos a ceia natalina. Kassler, batatas, frutas secas, vinho e de sobremesa um delicioso pavê. Antes da meia noite sentamo-mos para o jantar sagrado, pois o marido de minha amiga pretendia assistir a missa do Galo na igrejinha da cidade.

O jantar foi uma festa de Babette. Magia, união, comunhão e culinária. No momento da oração um sentimento extraordinário de amor a minha amiga e sua família expandiu-se. Esse amor construiu uma ponte com minha família no Brasil. Juntei-me a elas com todo meu amor e gratidão. Somos todos um.

Sem televisão ou jornais nossa estada na Alsácia transportou-nos no tempo, um tempo de simplicidade e harmonia. De volta a Paris e à rotina ligamos a TV e com perplexidade soubemos da tragédia na Indonésia.

Foram dias de muita tristeza com as notícias das centenas de mortos num dos maiores desastres naturais da História. Oramos pelas vítimas, suas famílias e amigos. Conversamos muito sobre nossos temores, o futuro ecológico do planeta, a possibilidade de guerras, enfim, aquela tragédia nos fez pensar e desejar um futuro melhor.

Acredito que dentre tantos motivos a grande onda da tsunami de 2004 trouxe, quatro anos depois, minha amiga de volta ao Brasil.

O natal na Alsácia foi uma experiência rica em misticismo, amor, amizade, auto conhecimento e a certeza de que somos capazes de materializar nossos sonhos.

Aos Boissier minha gratidão e amizade por dias inesquecíveis.