A feira livre é um dos lugares do meu afeto. Desde criancinha frequentava com papai a feira da rua Domingos Ferreira, em Copacabana. Tudo era mágico.
Os gritos dos feirantes, seus sorrisos. A sedução nas vendas. As barganhas dos fregueses. Lembro bem das jabuticabas doces e frescas vendidas a granel. O feirante simpático sempre me dava algumas e papai dizia "limpa na blusinha antes de comer". O verde degradê das verduras. O sol refletido nas pequenas gotas d'água sobre as cascas amarelas das laranjas. Papai sempre comprava abacate. Sábado era dia de abacatada com limão. Doces sabores da infância.
Certo dia fui a feira com mamãe o que não era muito comum naqueles dias. Não sei porque ela usou o carrinho de bebê de minha irmã para fazer as compras. Com o carrinho cheio de laranjas, bananas, melancia, verduras, legumes e um grande Badejo de olho brilhante retornamos para casa. No elevador a porta pantográfica já começara a mover-se quando a intrometida vizinha do terceiro andar abriu furiosamente a porta e entrou, assustando-nos.
Metida, a mulher abaixou-se na direção do carrinho, cuja capota ocultava o conteúdo, e exclamou estridente com seu mau hálito habitual "mas que bebê lindo"! Quando ela puxou a capota deu de cara com o olho brilhante do peixe morto. Rimos muito. A vizinha ficou tão sem graça que nunca mais puxou conversa com mamãe. Livramo-nos daquele hálito insuportável.
Seja em Copacabana, Tijuca, Glória, Botafogo, Humaitá ou na orgânica de Teresópolis, feira para mim é sinônimo de alegria. Amo o caldo de cana e o pastel de queijo da feira de Botafogo. E o suco verde na orgânica de Terê? Onde mais se pode comprar jaca doce e pegajosa? Na feira do Humaitá tem.
A orgânica de Teresópolis é uma experiência antropológica e uma viagem no tempo. Velhos hippies dos anos 70 juntam-se a jovens do século XXI e vendem abóboras morangas, enquanto dedilham blues ao violão. Doam sementes de tudo desde que o freguês comprometa-se plantar. A senhora dos sucos tem um rosto encantador, transmite paz e vende saúde. Não há pressa. Os produtores mostram orgulhosos seus produtos. Contam "causos". A feira é pequena e tão aconchegante que você entra e não quer mais sair.
Eu gosto de tudo nas feiras. Das mercadorias frescas e mais baratas à forma como os
feirantes se tratam. A camaradagem e respeito na disputa pelo freguês.
Há um código de honra no trato dos feirantes que lembra as corporações
de ofício da Idade Média. O jeito galanteador de alguns feirantes é cativante. "E aí freguesinha dos
olhos de mar, o que vai hoje?"
Arrisco dizer que saio da feira com cara de Monalisa. Sorrio para a vida.
Outro dia estava na barraca de verduras do Humaitá. Enquanto aguardava atendimento o feirante metido a engraçado começou a falar em voz alta. Queria ser um peixe. Ninguém disse nada. Uma segunda investida. Queira ser um peixe. Não resisti e cantei "pra no seu límpido aquário mergulhar".
Tudo continua mágico.